terça-feira, 2 de junho de 2015

196 SOFRÊNCIA


Numa roda de pôquer no clube Ypiranga, Nei Parada Dura, que tinha ojeriza à gente “peruando” na mesa, recebe de mão um four de damas. Às suas costas, um sujeito vê o jogo e discretamente lhe dá um cutucão nas costelas como se dissesse “bota fudendo, que eu te empresto a pica...”.

Impassível, Nei Parada Dura dispensa o four na mesa e pede novas quatro cartas do crupiê.

Surpreendido pela presepada, o sujeito deixa escapar um gemido de dor, quase um uivo involuntário:

– Nãããoooo!

E Nei Parada Dura, deliciado:

– Sofre, peru filho da puta! Sofre, peru desgraçado, filho de uma rampeira leprosa com gonorreia no cu! Sofre, miserável!

O sujeito se afastou da mesa quase correndo.

198 MAZELAS DE UM QUASE GOLEIRO


Paulo Caramuru, Áureo Petita e Juarezinho Tavares

Massagista do Santos, de São Francisco, o estabanado Renato “Chora Viola” é um poço de sensibilidade, se enfeza com tudo e chora por qualquer bobagem, o que lhe valeu o clássico apelido.

Num jogo entre Santos e Ferroviário, no campo do Penarol, nenhum dos dois goleiros santistas apareceu. Capitão de equipe, o volante Renan resolveu improvisar o massagista como goleiro. “Chora Viola” topou.

Na preleção inicial, quando os jogadores fazem um círculo, com cada um colocando os braços sobre os outros, todos de cabeça inclinada para o chão, ouvindo atentamente as instruções finais do capitão de equipe, Renan começou agradecendo a prestimosa colaboração de “Chora Viola”, que havia aceitado jogar como goleiro do time mesmo sem ter experiência na posição.

O quarto-zagueiro Paulo Caramuru cochichou para o meia-armador Fabinho:

– O cara que aceita jogar de goleiro sem ser goleiro ou é viado ou é doido...

Do outro lado do círculo, quase na frente do Paulo Caramuru, “Chora Viola” escutou a presepada e devolveu a bola pro quarto-zagueiro, também em forma de cochicho, para não atrapalhar a preleção de Renan:

– Eu sou doido...

Ainda cochichando pro Fabinho, Paulo Caramuru bateu de três dedos:

– Doido pra dar o cu...

Foi o suficiente. Chorando copiosamente, “Chora Viola” começou a tirar a camisa de goleiro e a xingar todo mundo:

– Tá vendo, Renan? Tá vendo, Renan? Ninguém me respeita! Já estão me chamando de viado! Eu não quero mais jogar nessa porra não! Vão se foder! Vão tomar no cu! Vão pra puta que pariu! Eu não preciso dessa merda de time não!

Foi um custo Renan convencer o massagista a entrar em campo como goleiro do time. 

Depois de muita conversa, “Chora Viola” entrou em campo, fechou o arco com meia dúzia de defesas milagrosas e o Santos ganhou de 2 a zero. 

Foi a primeira e última vez na vida que ele quis ser goleiro.

199 O CAPITÃO DE FRAGATA


Marcelo, Pai Simão, Dulce e Frank Jr.

Agosto de 1995. Com viagem marcada pra São Paulo, eu estava me preparando para ir ao aeroporto quando recebi um telefonema. Do outro lado da linha, meu filho Marcelo, de 18 anos, nervosíssimo, quase chorando:

– Pai, bati um carro por trás aqui perto do Colégio Militar e o dono do carro está ameaçando me prender porque não tenho carteira...

Eu expliquei que estava de saída para o aeroporto, mas pedi pra ele ficar calmo que iria falar com Pai Simão e logo tudo seria resolvido. Na mesma hora, telefonei para o velho, contei a situação e expliquei o que devia se feito:

– Negócio seguinte, papai: eu não quero confusão nenhuma porque o Marcelo está totalmente errado! O senhor vai lá, acerta quanto é o conserto do carro do sujeito e fala pra ele que assim que eu voltar de viagem, daqui a uns três dias, eu pago o prejuízo. Pode dar meu endereço e os meus telefones, tanto o de casa quanto o lá da Philco.

Pai Simão foi resolver a encrenca.

Quando voltei de São Paulo procurei pelo Marcelo para saber o desfecho do caso e pagar pelo prejuízo do sujeito.

– Pô, pai o vovô é muito doido! – disse Marcelo, rindo. – Ele chegou todo de branco, da cabeça aos pés. Aí, os caras que estavam no local do acidente pensaram logo que era algum capitão de fragata da Marinha de Guerra. Além disso, ele vinha espumando de raiva. Se um marinheiro puto já mete medo, pense num capitão de fragata! O vovô foi logo peitando o dono do carro: ‘Seu patife irresponsável, como é que você dá uma fechada desse jeito no meu neto e nem usou o pisca-alerta? Você é maluco, porra, você é maluco? Me dá logo a merda dos documentos do teu carro, que eu vou mandar guinchar agora mesmo pra você aprender a dirigir com responsabilidade’. O cara só faltou fazer cocô nas calças. O vovô continuou no mesmo tom, mais brabo do que siri em lata: ‘Marcelo, tira o teu carro daqui e vai embora, que eu só saio daqui quando a polícia chegar e levar esse cabra preso’. Cada vez mais encagaçado, o sujeito se desculpou, disse que era uma batidinha de nada, que o vovô não se preocupasse, que estava tudo bem, não precisava chamar a perícia nem nada. Na primeira oportunidade, ele entrou no carro e foi embora. Estava mais branco do que uma vela...

Resultado: não paguei um tostão pelo conserto do carro do cidadão, mesmo sabendo que toda batida por trás é indesculpável, ainda mais quando o causador do acidente não possui carteira de habilitação. Coisas do Pai Simão.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

200 DOIS PERDIDOS NUMA CIDADE MARAVILHOSA


Maio de 2001. A convite da Secretaria Estadual de Cultura (SEC), eu e Mário Adolfo embarcamos para o Rio de Janeiro na noite de uma quarta-feira, para participar da 10ª Bienal Internacional do Livro.

Nós dois ficamos hospedados no Rio Othon Palace, em Copacabana, com todas as despesas correndo por conta da SEC – exceto biritas e pagamento de vagabundas.

A bienal iria rolar em um espaço de 48 mil m², distribuídos em dois pavilhões do Riocentro.

Somente para a Espanha, país homenageado, a área destinada era de 500 m². Argentina, China, Estados Unidos, França, Itália, Jamaica, Colômbia, Portugal, Cuba e México estavam confirmados no evento.

Seriam mais de 800 expositores, entre eles a SEC/Editora Valer mostrando a literatura regional do Amazonas.

No referido stand, que ficava próximo do Café Literário, Mário Adolfo iria fazer uma noite de autógrafos do livro “A, E, I, Ópera”, na quinta-feira, em companhia da escritora Ana Maria Daou, que estava lançando o livro “A Belle Époque Amazônica”.

Eu repetiria a dose na sexta-feira, com o livro “Folclore Político do Amazonas”, em companhia da poetisa Astrid Cabral, que estava lançando o livro “Alameda”.

Na manhã de sábado, a gente retornaria para Manaus.

Como nossos compromissos oficiais eram noturnos, a gente tinha dois dias inteiro pra vadiar.

E foi o que fizemos, depois de Mário Adolfo contratar o motorista carioca Eduardo Cabeção pra ser nosso guia turístico particular.


Na quinta-feira, Mário Adolfo foi dar entrevistas para a rede Globo, jornal O Dia, Tribuna da Imprensa e Jornal do Brasil, enquanto eu fui bater pernas pelos sebos de Copacabana.

Voltamos a nos encontrar na hora do almoço, no restaurante do hotel, localizado no 30º andar.

Extremamente charmoso, o Skylab Bar e Restaurante oferece uma bela visão panorâmica da praia de Copacabana e tem uma excelente infraestrutura, com serviço impecável, pessoal simpático e comida, quase sempre, deliciosa.



O jornalista Mário Adolfo, com seu habitual espírito de monge franciscano fazendo voto de pobreza, pedia, invariavelmente, filé com fritas (R$ 30), com pequenas variações (“mal passado” ou “no ponto”).

Como quem ia pagar era a SEC, eu escolhia o meu pedido consultando a lista da direita (dos preços), me fixando sempre nos mais caros, mas cada vez escolhendo um prato diferente: lagosta a moda de Peniche (R$ 110), lagosta a Thermidor (R$ 108), lagosta a Belle Meunière (R$ 105), lagosta gratinada (R$ 102) e assim por diante. Quase enjoei de tanto comer lagosta.

A noite, depois do lançamento do livro do Mário Adolfo, fomos encher a cara no Bar Diagonal, no Leblon, na esperança de encontrarmos o músico Rui de Carvalho, que garantiu que ia aparecer, mas na última hora fez “forfait”.


Soubemos depois que o Rui de Carvalho estava de namorada nova no pedaço e ficou com medo de a gente querer fazer alguma gracinha pra cima da moçoila. Pode?...

Na sexta-feira, ainda se recuperando da ressaca da noite anterior, Mário Adolfo acordou cedo e resolveu comprar dez pares de sapatilhas indianas existentes em uma exclusivíssima loja de Ipanema.

Pra ganhar tempo (?) ou reanimar seu autêntico espírito indígena, ele resolveu sair do hotel descalço.

Fomos a pé de Copacabana até Ipanema, onde passamos umas duas horas caminhando pelas ruas do bairro e nada de encontrar a tal lojinha.

Mário Adolfo estava cada vez mais puto porque, volta e meia, metia o pé descalço em cocô de cachorro, o que, convenhamos, é uma verdadeira merda.

Quem via aquele sujeito descalço andando pelas ruas do bairro deduziria, obviamente, que ele morava por ali.

Ninguém anda descalço impunemente na terra dos outros.

A não ser que o tal sujeito descalço tivesse descido do morro do Cantagalo, o que, em qualquer circunstância, costuma ser sinônimo de encrenca.

Por volta do meio dia, Mário Adolfo acatou minhas sábias ponderações, comprou uma simplória sandália havaiana no camelô da esquina, e nos aboletamos no bar Bofetada, na rua Farme de Amoedo, onde nos empaturramos de chope gelado e badofe (carne-seca desfiada com cebola e tutu de feijão).


Chegamos a telefonar para o Antídio Weil, que estava labutando em Manaus, só pra lhe matar de inveja.

A noite, durante o lançamento do meu livro, encontrei casualmente o secretário de Cultura Robério Braga e cantei a pedra:

– Porra, secretário, domingo o Vasco decide o campeonato estadual com o Flamengo, no Maracanã, mas a diária do hotel vence no sábado e a gente vai ter que ir embora. Será que você não pode descolar mais duas diárias pra nós dois? Aí, eu poderia realizar um antigo sonho de ver o Vasco em uma final em pleno Maracanã...

Vascaíno roxo, Robério Braga nem titubeou:

– É uma causa justa, meu poeta. Vou ligar pro hotel agora mesmo e resolver o problema!

Esse Robério Braga é um paidégua!

Pra comemorar aqueles dois novos dias de lazer na Cidade Maravilhosa, assim que deixamos o Riocentro nós fomos encher a cara no Sindicato do Chopp, em Ipanema, mas não convidamos o Rui de Carvalho. Nem a namorada dele.


O Mário Adolfo também aproveitou a oportunidade para roubar, na maior cara dura, os imensos banners oficiais anunciando os nossos lançamentos literários na bienal.

No sábado, por volta das 9h de uma manhã luminosa, nos mandamos para a Barra da Tijuca e nos aboletamos nas proximidades da Barraca do Pepê, onde ficamos admirando, bestificados, as popozudas em flor.


Na praia, conhecemos um sujeito apelidado de Magrão, supostamente líder comunitário na Rocinha.

Quando soube que a gente era de Manaus, ele se transformou voluntariamente em nosso guarda-costas e garçom preferencial porque tinha treinado jiu-jitsu com o Artur Neto na Academia Gracie.

Era o Magrão que nos abastecia com caipiroscas de todos os tipos.


Pra mostrar que conhecia o pessoal do movimento, ele foi de carona conosco até a parte mais alta da Rocinha – por volta das 7h da noite –, desceu do carro, falou alguma coisa com alguns sujeitos que estavam numa birosca, aí voltou a falar com a gente.

Os sujeitos haviam nos autorizado a continuar a viagem pelo miolo da favela, mas sem parar nem pra mijar.

Dito isso, Magrão se despediu e sumiu em uma das ruelas da Rocinha.

O motorista do Mário Adolfo estava em pânico.

Em trinta anos de profissão, Eduardo Cabeção nunca tinha andado por aquelas quebradas com medo de bala perdida.

Eu devia estar muito bêbado, porque achei a Rocinha muito simpática.

Havia tanta gente andando animadamente pelas ruas, que parecia até que a gente estava subindo a rua Leopoldo Neves, em Educandos, em dia de liquidação na Casa das Sedas.

No domingo, tomamos o café da manhã junto com os jogadores do Vasco da Gama, que estavam concentrados no hotel.

Mário Adolfo insistiu para que eu tirasse uma foto junto com o baixinho Romário ou com o marrento Viola, mas descartei a idéia.

Eles não eram da minha época. Se fosse o Roberto Dinamite, vá lá...

Por volta das 15h, o Eduardo Cabeção nos apanhou na portaria do hotel já com os ingressos comprados para a área central das arquibancadas e nos mandamos para o Maracanã.

Durante o trajeto, o Mário Adolfo me presenteou com um chapéu e uma faixa de campeão comprada de um camelô.


O Vasco havia vencido a primeira partida por 2X1 e, como havia feito a melhor campanha do campeonato, jogava por dois resultados iguais.

Quer dizer, podia perder a segunda partida até por um gol de diferença.

Durante o primeiro tempo, o jogo foi bem agitado.

Nervoso e precisando do resultado, o Flamengo pressionava, enquanto o Vascão se mandava nos contra-ataques.

Logo no início do jogo, Viola poderia ter aberto o placar para o Vasco da Gama, mas Júlio César salvou o Urubu com uma defesa milagrosa.


Mas, aos 23, quem abriu o placar foi o Flamengo. O lateral-esquerdo Cássio caiu sozinho dentro da área e o juiz ladrão marcou pênalti.

Edílson bateu e marcou. 1x0 para o Urubu, que precisava de mais um gol para conquistar o título.

No entanto, quem marcou em seguida foi o Vasco.

Primeiro com Euller, em gol que foi anulado pelo bandeirinha, devido a um suposto impedimento que só aquele corno viu.

Depois, após tanto pressionar, e perder novas chances com Viola e Euller, Juninho Paulista empatou o jogo, após receber passe do atacante Viola, dentro da área.

O próprio Juninho poderia ter decidido o jogo, em um novo contra-ataque do Vascão, mas o filho da puta do Júlio César salvou o Urubu de novo, com outra defesa milagrosa.

Fim do primeiro tempo, vantagem do Vasco, com o Urubu precisando de dois gols para ser campeão.


Na volta do intervalo, o Vasco começou a fazer uma cagada atrás da outra.

Aos 8 minutos, o seboso Petkovic fez um cruzamento para dentro da área, os zagueiros do Vasco ficaram parados e o baixinho Edílson completou de cabeça: 2x1 para a urubuzada.

A partir daí, foi só emoção. Juninho Paulista cobrou falta com perigo e acertou o travessão de Júlio César.

Euller chegou a driblar o goleiro em outro lance perigoso a favor do Vascão, mas ficou sem ângulo e perdeu a chance.

O Vasco era só pressão, mas todas as bolas paravam nas mãos do inspirado goleiro rubro-negro.

O filho da puta deve ter entrado para o Guiness como o goleiro que mais fez defesas milagrosas (17) em uma única partida.

Até que, aos 43 minutos do segundo tempo, com a torcida vascaína já comemorando o título, veio o momento que não sai da cabeça de quem assistiu àquela decisão.

Falta para o Flamengo, na entrada da área, em cima de Edílson. Adivinha quem vai bater? É o camisa 10 da Gávea...

Sim, aquela música famosa de Jorge Bem foi feita em homenagem a Zico.

Mas dessa vez não foi bem aquele camisa 10 da Gávea quem bateu. Foi outro. O filho da puta do sérvio Petkovic.

Sentado ao meu lado, o botafoguense Mário Adolfo cantou a bola:

– Sei não, parceiro, mas isso está me cheirando a gol do Flamengo...

Ponderei, me lembrando dos tempos em que era quarto zagueiro do Murrinhas do Egito:

– Se não forem babacas, os jogadores da barreira vão correr pra bola assim que o árbitro apitar, abafar o lance e vai ter uma nova cobrança. Fazendo isso três vezes, eles quebram a concentração do Petkovic e ele vai ter que cruzar na área de qualquer jeito. Aí, é só chutar pro mato e correr pro abraço...

O técnico vascaíno Joel Santana, entretanto, preferiu ficar rezando no banco em vez de orientar os jogadores a impedirem a cobrança de falta. Um idiota!

O árbitro Léo Feldam apitou, Petkovic partiu para a bola, a barreira ficou estática, e, como se tivesse sido colocada com a mão, a bola foi parar no fundo das redes, no ângulo esquerdo do goleiro vascaíno Helton.


Sem chances, indefensável, indescritível. Meus colhões foram parar nas amigdalas.

Puta que pariu, mas esse Mário Adolfo tinha uma boca amaldiçoada!

Saindo do estádio, verdadeiramente puto, tomei uma decisão radical: nunca mais colocar os pés no Maracanã.

Ainda bem que demoliram aquela merda e colocaram outra arena no lugar...


O mais chato, entretanto, foi atender várias ligações da urubuzada de Manaus querendo saber o que havia acontecido, quando a gente ainda estava esperando o Eduardo Cabeção diante da estátua do Bellini, em frente ao estádio.

Uma infâmia para jamais ser esquecida!

203 LIÇÃO DAS PEDRAS


O ex-encrenqueiro Renato Doido

Novembro de 1974. Depois de uma matinê no Cine Ypiranga, a cachorrada (Arlindo Jorge, Sici Pirangy, Chico Porrada, Carlinhos, Renato Doido, Airton Caju, Gilson Cabocão, Paulo César Dó, etc) vai caminhando pelas ruas do bairro até o bar do seu Amadeu, no canto das ruas Parintins e Urucará. Lá, pedem uma garrafa de cachaça Tatuzinho, misturam com guaraná Andrade e começam a biritar.

Por volta das 19h, um casal passa de mãos dadas pela frente no bar, em direção à rua Tefé. O abusado Renato Doido pirou o cabeção. Ele vai para a porta do bar e abre o verbo:

– Gostosa! Bunduda! Peituda! É de uma máquina dessas que estou precisando pra trocar o óleo! Vai lá pra casa que eu te dou grana, comida e roupa lavada, pedaço de mau caminho!
Quinze minutos depois, um sujeito chega ao bar.

– Meus amigos, com licença, mas você sabem qual foi a pessoa daqui que ficou jogando piadinhas pra minha esposa quando a gente ia passando?...

– Foi aquele ali! – avisou Arlindo, apontando para o Renato Doido.

– Será que vocês me permitem dar umas porradinhas nele? – insistiu o sujeito.

– Fique à vontade, meu amigo! – devolveu Sici Pirangy.

O sujeito segurou o Renato Doido pelo colarinho, levou para fora do bar e lhe deu um samba de crioulo doido. O abusadinho apanhou mais do que boi ladrão. Terminada a sova, o sujeito agradeceu pelo fato de ninguém ter se metido e foi embora.

Coma fuselagem totalmente avariada, Renato Doido estava inconformado:

– Vocês não são meus amigos! O cara me enchendo de porrada e ninguém se meteu! Vocês não são meus amigos, porra! Vocês são uns traíras!

– Teus amigos, nós somos! – avisou Arlindo Jorge. – O que não está certo é você fazer graça com pessoas que nem conhece. Você gostaria que alguém fizesse o mesmo com a tua namorada?...

Pelo visto, Renato Doido aprendeu a lição, já que nunca mais repetiu a façanha.

204 DANÇA COM LOBOS


Agosto de 1989. Inocente, puro e besta, Alcides Almeida (aka “Mestre Pajé”) tinha 22 anos quando foi recrutado para servir de “mula” para o tráfico internacional de entorpecentes. O serviço parecia ser uma galinha morta. Ele receberia 10 mil dólares para levar cinco quilos de cocaína para Lisboa.

O esquema estava todo montado, não tinha como dar zebra. Pelo menos na parte teórica. Mestre Pajé se deslocaria de Manaus para o Rio de Janeiro levando apenas uma mochila e de lá seguiria na mesma noite para Lisboa.

Na capital portuguesa, iria para um hotel no centro da cidade, entregaria a mochila a um determinado sujeito e retornaria para o Rio de Janeiro no dia seguinte, voltando de lá para Manaus. Os fiscais alfandegários do Brasil e de Portugal estavam todos “comprados”, não haveria problema nenhum de fiscalização.

Quem não toparia ganhar 10 mil dólares em 24 horas? Pajé topou.

No Rio de Janeiro, ele despachou a mochila pra Lisboa e ficou aguardando a chamada do voo internacional. Foi quando viu uma animada roda de pagode acontecendo no bar do aeroporto.

Batuqueiro de carteirinha, Pajé pediu pra participar da fuzarca e começou a mostrar suas habilidades no atabaque, surdo de marcação, tantã, tamborim e caixinha. Virou a atração da roda de pagode. Quando deu por si, seu avião já havia partido pra Lisboa.

Pajé havia ficado em uma bela sinuca de bico. Se voltasse pra Manaus, os donos da mercadoria poderiam desconfiar de terem levado um “banho” daquele garoto esperto – e as consequências seriam desastrosas. Era preferível comprar uma nova passagem, se mandar pra Lisboa no próximo voo e entregar o resto a Deus. Foi o que ele fez.

Assim que desceu no aeroporto da Portela do Socavem, em Lisboa, Pajé se dirigiu para o setor de bagagens de voos internacionais. De longe, percebeu que sua mochila estava circulando solitariamente em uma das esteiras, sabe-se lá há quantas horas.

É evidente que as autoridades portuguesas já haviam revistado a mochila e também já sabiam do que se tratava. Nenhuma mochila fica rodando impunemente em uma esteira de aeroporto europeu por mais de seis horas seguidas sem despertar a paranoia de atentado terrorista.

Inocente, puro e besta, Pajé apanhou a mochila na esteira, colocou nas costas e se dirigiu para a saída do aeroporto. Antes de dar dez passos, já havia sido imobilizado no chão por meia dúzia de brutamontes. Saiu algemado do aeroporto diretamente para o Estabelecimento Prisional de Lisboa, localizado no Parque Eduardo VII.

Uma semana depois, foi julgado sumariamente e recebeu a pena de oito anos de reclusão, em regime fechado, por tráfico internacional de drogas.

Na prisão, Pajé fez amizades com vários presos pelo mesmo crime e passou a trabalhar na limpeza diária das celas dos apenados. Alguns meses depois, ele participaria da criação de uma banda multirracial (um brasileiro, um australiano, um haitiano, um americano e um holandês) especializada em covers do Pink Floyd, Led Zeppelin e U2.

Por iniciativa do diretor da penitenciária, a banda começou a fazer apresentações ao vivo em outras penitenciárias, instituições de menores infratores e clubes de oficiais lusitanos, obtendo um merecido sucesso. Cinco anos depois, a pena de Pajé seria reduzida em um terço por bom comportamento e, na sequência, ele seria deportado do país.

Mestre Pajé retornou a Manaus em 1994 e, no Dia de Natal, foi visitar o Simas Pessoa, um dos poucos amigos com que costumava trocar correspondência durante suas “férias forçadas” em terras lusitanas.

Encontrou Simas no pátio da casa, biritando alegremente na companhia de Zé Alfredo. Na primeira oportunidade que teve, Zé Alfredo, nervosíssimo, cochichou para o parceiro de birita:

– Caralho, Simas, mas a Polícia Federal deve estar monitorando esse cara até agora. Se a gente bobear, vamos entrar na fita! Puta que pariu, vai ser foda a gente se foder de graça...

Simas não deu a mínima. Mestre Pajé fez um relato breve de sua permanência em Lisboa, recusou polidamente a cerveja oferecida pela dupla e disparou, à queima-roupa:

– Porra, Simas, eu estou mesmo é a fim de dar um tiro...

Simas abriu o portão lateral da casa e levou Mestre Pajé até o quintal.

– Se quiser dar seus tiros, dê aí... Lá na frente da casa, não, que vai ser a maior sujeira... – avisou.

Dito isso, ele voltou para o pátio. Zé Alfredo tinha tomado chá de sumiço.

Resumo da ópera: Mestre Pajé não é Spawn ou Hellboy, mas também voltou inteiro do inferno. Não é pouca porcaria. Tenho (temos) orgulho dele.

209 A MALDIÇÃO DE MONTEZUMA


Simão Pessoa, Marcus Vinicius e Mário Adolfo Filho

Em meados dos anos 90, Mário Adolfo e Maria Teresa levaram os dois filhos (Mário Adolfo Filho e Marcus Vinicius) para conhecerem o Disney World, na Flórida. Depois de uma semana se divertindo nos brinquedos do parque temático, resolveram ir às compras no Aventura Mall, um dos shoppings mais completos da região de Miami, com 240 lojas. 

Todas as grandes lojas de departamentos americanas estão ali, caso de Sears (barata), Macy’s (média) e Nordstrom (cara), e das badaladas JCPenney, Bloomingdale’s, Abercrombie & Fitch, Ann Taylor, Apple, Banana Republic, Coach, The Disney Store, Guess, LaCoste, Tumi e Victoria’s Secret.

O shopping também possui vários restaurantes e lanchonetes tradicionais como o The Cheesecake Factory, Johnny Rockets, OCean Prime, Paul Maison de Qualite 1889, Rosalia’s, Sushi Siam, Charley’s Grilled Subs, Chicken Kitchen, Five Guys Burgers and Fries, Mandarin Express, Ruby Thai e o Tony Roma Express. 

Na hora do almoço, enquanto Teka e as crianças optaram pelo tradicional filé com fritas do Charley’s, o impetuoso Mário Adolfo resolveu encarar a apimentada culinária mexicana servida no Surf Road Taco.

Pra quem não sabe, o taco é o principal prato mexicano. Ele consiste de uma tortilha recheada com carne, pimenta, milho, tomate, cebola e guacamole (abacate). A massa do recheio costuma ser crocante e o taco, depois de frito ou assado, tem a aparência de um prosaico rissole. Mário Adolfo caprichou no molho de pimenta Habanero, a mais braba das pimentas mexicanas, e detonou dois tacos em menos de cinco minutos.

Na hora em que se dirigiu ao caixa para pagar a conta, seu estômago começou a acusar o golpe. A maldição de Montezuma havia se abatido sobre o jornalista.

Suando frio, tomado por cólicas indescritíveis e fazendo força para não defecar na calça, Mário Adolfo gastou seu portunhol com meia dúzia de transeuntes até conseguir descobrir com uma vendedora cubana onde ficavam os sanitários do mall. Eles estavam localizados no final de um gigantesco corredor de quase 100 metros.

Mário Adolfo se dirigiu para lá, caminhando lentamente, enquanto um barulho ensurdecedor saía de seus intestinos. Qualquer movimento brusco e os tacos liquefeitos desceriam inapelavelmente pelas suas pernas.

Depois de caminhar uns dez minutos que pareceram um século, Mário Adolfo entrou no reluzente sanitário masculino, se sentou no primeiro vaso disponível, a uns cinco metros da entrada, e deixou a natureza seguir seu curso. Os dois tacos haviam se transformado em uma copiosa diarreia de chicote. Um fedor de rato morto envolveu o ambiente como uma mortalha.

Do seu posto de observação privilegiado, o jornalista ouvia passos em direção à entrada do sanitário masculino. De repente, os passos silenciavam como se o sujeito tivesse parado na porta. Então, o silêncio era quebrado por imprecações furiosas em diversos idiomas:

– Oh my God!

– Shit!

– Carajo!

– Disgusting!

– Banzaiiiiiii!

– Cáspite!

– Damned!

– Nojeeento!

Evidentemente, ninguém conseguia atravessar o muro invisível erigido pela fedentina.

Preocupado com a hipótese de alguém mais desassombrado entrar no sanitário e depois se abaixar para olhar por baixo da parte inferior da porta de seu esconderijo, Mário Adolfo descalçou o tênis. Ele não queria ser reconhecido como o autor daquela calamidade pública.

Depois de uns dez minutos de agonia, Mário Adolfo bateu em retirada apressadamente, completamente descalço, com o par de tênis escondido embaixo da camisa. No meio do caminho, cruzou com uma equipe de bombeiros que se dirigia ao local para tentar encontrar o rato morto, seguido por uma multidão de sujeitos furiosos reclamando da fedentina em vários idiomas.


Vendo Mário Adolfo andando descalço pelos corredores daquele mall luxuoso como se fosse um legítimo índio mura, Teresa e os meninos não entenderam a motivação daquela excentricidade bizarra, mas também não cobraram explicações. 
Eles só foram saber do ocorrido depois que chegaram ao hotel. Quase morreram de rir.